sexta-feira, 14 de novembro de 2008

BENCHMARKING - OS PONTOS FORTES DOS OUTROS COMO REFERÊNCIA NA BUSCA DE EXCELÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES E NA VIDA DAS PESSOAS

DESAFIOS DA GLOBALIZAÇÃO E DO AVANÇO TECNOLÓGICO

A queda de barreiras comerciais, o rápido avanço tecnológico, a maior disponibilidade de informações e o grande aumento das expectativas dos clientes ao redor do mundo são os principais agentes de mudanças que surgem junto com o fenômeno da globalização.
Nas condições atuais de competição, a busca de vantagens competitivas tornou-se um critério indispensável para a sobrevivência das organizações. As mudanças, em todos os níveis, têm ocorrido de forma extraordinariamente veloz, e a empresa que não se empenhar em acompanhá-las estará se condenando ao esquecimento e conseqüente desaparecimento.
Desse modo, a melhoria contínua passa a ser uma arma poderosíssima para aqueles que desejam se manter competitivos.
A abertura comercial que ocorreu no Brasil a partir do final da década de 80 expôs seu parque industrial a uma concorrência sem precedentes. Para sobreviver neste novo mercado muitas empresas tiveram que aprimorar suas capacidades e tecnologias, e empenharam-se em buscar as melhores práticas disponíveis no exterior através da prática de benchmarking.

BENCHMARKING

Com certeza você está aprendendo muito com os erros e acertos que você vem cometendo nas decisões que são tomadas em sua empresa. Mas, já imaginou quanto tempo e dinheiro você pouparia se pudesse aprender com os erros e acertos que os outros cometeram na condução de seus empreendimentos? Quantas técnicas já testadas poderiam ser incorporadas ou descartadas ao se mensurar qual foi o resultado que elas trouxeram para outras empresas?
A adoção de uma técnica administrativa chamada Benchmarking pode ser a resposta para estas e outras perguntas que podem ser feitas a respeito do seu empreendimento, tais como: por que será que o seu concorrente consegue atrair um maior número de clientes que a sua empresa? Por que o seu produto tem que custar sempre mais caro que o do seu concorrente?
Pode-se entender o Benchmarking, que em português significa ponto de referência, como um processo contínuo de comparação dos produtos, serviços e práticas empresarias entre os mais fortes concorrentes ou empresas reconhecidas como líderes. É um processo de pesquisa que permite realizar comparações de processos e práticas “companhía-a-companhía" para identificar o melhor do melhor e alcançar um nível de superioridade ou vantagem competitiva.
Os Japoneses têm uma palavra chamada Udantotsu" que significa lutar para tornar-se o "melhor do melhor", com base num processo de alto aprimoramento que consiste em procurar, encontrar e superar 05 pontos fortes dos concorrentes.
Esse conceito enraizou-se numa nova abordagem de planejamento estratégico. Durante a última década, ele tem produzido resultados impressionantes em companhias como a Xerox, a Ford e a IBM .
Embora o processo básico seja o mesmo, existem alguns tipos de benchmarking, diferenciados pelo 'alvo' ou 'objeto' da atividade de benchmarking. São basicamente três tipos:

·Benchmarking interno: é praticado por empresas que visam identificar as melhores práticas internas da organização e disseminar sobre essas práticas para outros setores da organização. Este tipo de benchmarking e um dos mais fáceis de ser executado, pois os dados envolvidos estão facilmente disponíveis e não há problemas de confiabilidade, porém pode haver desvantagens neste tipo de benchmarking, pois as práticas internas podem estar impregnadas pelos mesmos paradigmas. A realização de um benchmarking interno, geralmente propicia um passo para um estudo voltado para fora, ou seja, uma focalização externa na busca de melhorias, ou ainda, a prática de um benchmarking externo.

·Benchmarking competitivo: é o tipo mais difícil de ser praticado, porque as empresas visadas são aquelas que disputam o mesmo mercado, ou seja, concorrentes diretos, e geralmente não estão dispostas ou interessadas em ajudar a equipe envolvida no processo de um benchmarking competitivo. O benchmarking competitivo foca em medir funções, métodos e características básicas de produção em relação aos seus concorrentes diretos, e melhorá-Ios de forma que a empresa possa inicialmente alcançar os seus concorrentes, e depois ultrapassá-Ios, tornando-a melhor do ramo, ou no mínimo melhor que seus concorrentes.

·Benchmarking funcional: é a forma mais utilizada, pois não há necessidade de comparar-se com um concorrente direto. As empresas investigadas, geralmente são de ramos distintos, que adotam técnicas interessantes em atividades especificas, que possam ser colocado em prática na empresa do investigador, como por exemplo embalagem, faturamento ou controle de estoques. O processo de um benchmarking funcional poderá ser altamente produtivo, pois possibilita que a troca de informações se dá de maneira mais fácil, não tendo problemas com a confiabilidade das informações, pois as empresas envolvidas não disputam o mesmo mercado.

·Benchmarking Genérico: nesse processo de benchmarking, as empresas participantes tem função ou processos empresariais semelhantes, independente das diferenças entre as indústrias. Um desses processos pode ser, por exemplo a análise, desde a entrada de um pedido na indústria até a entrega do produto ao cliente. O benchmarking genérico requer uma conceituação ampla e complexa do processo analisado e tem potencial para revelar as melhores das melhores práticas.

BENEFÍCIOS DO BANCHMARKING

·Melhora a qualidade organizacional.
·Conduz a operações de baixo custo.
·F acil ita o processo de mudança.
·Expõe as pessoas a novas idéias.
·Amplia a perspectiva operacional da organização.
·Cria uma cultura aberta a novas idéias.
·Serve como catalisador para o processo de aprendizagem.
·Aumenta a satisfação dos funcionários da linha de frente através do envolvimento, aumento de sua autoridade e um senso de domínio sobre o trabalho.
·Testa o rigor das metas operacionais internas.
·Vence a natural descrença dos funcionários da linha de frente sobre a possibilidade de melhoria do desempenho.
·Cria uma visão externa para a empresa.
·Aumenta o nível organizacional ao máximo.


Benchmarking é...
Um processo contínuo
Uma Investigação que fornece informações valiosas
Um processo de aprendizado com os outros
Um trabalho intensivo, consumidor de tempo, que requer disciplina
Uma ferramenta viável a qualquer organização e processo
Benchmarking não é...
Um evento isolado
Uma investigação que fornece respostas simples e "receitas"
Cópía ou imitação
Rápido e fácil
Mais um modismo da administração

Entretanto, o Benchmarking não é simplesmente copiar. É necessário que você adapte a boa idéia à cultura de sua empresa, às suas particularidades, principalmente se você buscar "inspiração" em uma empresa fora do seu ramo de atividade. Assim, se comprometa ao desafio de sempre procurar uma nova prática, implementá-Ia e aprimorá-Ia, de forma inovadora e criativa à sua realidade. É justamente o aprimoramento constante da prática que vai trazer para a sua empresa a vantagem competitiva frente aos seus concorrentes.
Como o benchmarking tornou-se bastante utilizado principalmente entre empresas norte-americanas e européias, vários foram os modelos que surgiram por causa de modificações realizadas por seus implementadores para que o processo se adaptasse à cultura de suas respectivas organizações. Entretanto, de um modo genérico todos os processos de benchmarking se resumem em cinco etapas básicas:

A- Determinar do que fazer benchmarking;
B- Identificar parceiros;
C- Coletar e analisar dados;
D- Estabelecer metas;
E- Implementar ações e monitorar progresso.

O sucesso de um projeto de benchmarking depende do total envolvimento da alta gerência, dando o suporte e fornecendo os recursos necessários para sua ímplementação e seu desenvolvimento; de uma mudança cultural na organização, que deve reconhecer que pode aprender com terceiros; e da disponibilidade de informações sobre o objeto a ser estudado, fator este que pode ser dificultado quando se realiza o benchmarking competitivo.

CLIENTE MISTERIOSO

Utilizando a metodologia do "cliente misterioso", esta solução possibilita uma visão comparativa dos processos internos, canais de relacionamento, produtos e serviços dos seus concorrentes e de empresas referências de mercado. A partir deste estudo, valoriza-se as práticas excelentes, adota-se novas e corrige-se o que não está adequado, buscando a melhor experiência do cliente final.

BENCHMARKING NO TERCEIRO SETOR

Os benefícios dos processos de benchmarking são maiores quando as organizações participantes têm interesse em colaborar com as demais, o que tende a ser mais fácil de se conseguir entre organizações do terceiro setor do que na iniciativa privada, onde geralmente a concorrência é muito acirrada.
Na prática, algumas organizações do terceiro setor realizam uma espécie de "benchmarking intuitivo" quando têm a oportunidade de entrar em contato com entidades que atuam de forma semelhante, atendem o mesmo tipo de população alvo ou ainda desenvolvem atividades complementares. Este "benchmarking intuitivo" acontece, por exemplo, em encontros, seminários ou eventos presenciais que reúnem gestores de diferentes entidades. Durante eventos desta natureza é fácil constatar o entusiasmo dos participantes diante da oportunidade de discutirem problemas comuns, trocarem experiências e dicas voltadas à solução de determinados problemas ou ainda estabelecerem parcerias que resultem em uma atuação integrada. Porém, o mais comum é que os participantes percebam o potencial benefício desta interação e saiam desses encontros com a sensação de que precisam se encontrar novamente para trocar mais informações e experiências.
A adoção de uma metodologia estruturada de benchmarking pode ser extremamente útil exatamente na facilitação deste processo de troca e interação, possibilitando a mensuração, análise e comparação das práticas adotadas pelas diferentes organizações. Ao empregar o benchmarking como uma ferramenta para conhecer de que modo organizações respondem a diferentes desafios, as entidades adquirem conhecimentos importantes para aperfeiçoar seus próprios processos de trabalho, sem ter quê "reinventar a roda". As organizações da sociedade civil podem empregar o benchmarking ao menos em duas situações distintas:
·Para aperfeiçoar a gestão organizacional, o que inclui a melhoria de atividades como captação de recursos, comunicação e recursos humanos. Neste caso a organização pode "aprender" como entidades que tenham reconhecido sucesso nestas atividades realizam seu trabalho e adotar mudanças em seus próprios processos de trabalho.
·Para aperfeiçoar seus projetos e serviços prestados à população, baseando-se em experiências bem sucedidas desenvolvidas por outras organizações. Conhecer em maior detalhe projetos desenvolvidos por outras organizações pode ser útil tanto para o aperfeiçoamento das atividades que já são desenvolvidas pela própria entidade como para o desenvolvimento de novas linhas de ação. Este tipo de benchmarking pode ser facilitado, por exemplo, através da realização de consultas a catálogos e bancos de dados de projetos considerados bem sucedidos ou exemplares, conhecidos em inglês como "best practices". Fontes de informação desta natureza representam um "estoque de conhecimento" que pode inspirar outras organizações a aperfeiçoarem seus próprios projetos.

CURSO SENAC

Benchmarking como Ferramenta Estratégica
O participante aprende a aplicar a metodologia de benchmarking de mercado, seja de um produto, de um processo, de um departamento ou mesmo de uma empresa, utilizando-se de ferramental e habilidades de estratégia, visando propiciar o desenvolvimento e evolução contínua da empresa em relação aos seus concorrentes.
(Carga horária: 24 horas)

Pré-requisito - Ter 16 anos e Ensino Médio concluído.

Método - Exposições dialogadas, análise e simulação de situações reais de trabalho, atividades individuais e em grupo, leitura e discussão de textos, com apoio de recursos audiovisuais.

Programa - Panorama e conceitos de estratégia que dão suporte à aplicação da metodologia de benchmarking.
· Principais características, origens, benefícios e limitações do benchmarking.
· Metodologia e fases da realização de um processo de benchmarking
Certificação - O Senac confere o certificado de conclusão do curso.


LIVROS

BENCHMARKING - O CAMINHO DA QUALIDADE TOTAL IDENTIFICANDO, ANALISANDO E ADAPTANDO AS MELHORES
Autor: ROBERT C. CAMP
Editora: THOMSON PIONEIRA

BENCHMARKING
Autor:ROSANGELA MARIA PEREIRA CATUNDA
Editora: FUNDO DE CULTURA

BENCHMARKING
Autor:JOHN FISHER
Editora: CLlO EDITORA

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

TELEPRESENÇA E TELETRABALHO


TELEPRESENÇA

Diz Ethevaldo Siqueira, colunista do “O Estado de São Paulo”: ”Imagine um sistema de comunicação audiovisual, futurista, altamente interativo, capaz de reunir pessoas em quatro cidades ou países diferentes, com imagens em alta definição em tamanho real, som digital e conexão feita a partir de um simples toque numa tecla num telefone com protocolo IP”.
“Esse sistema nada tem de ficção nem de futurológico, mas já existe e começa a funcionar em diversos países, inclusive no Brasil, no que poderia ser chamado de evolução da videoconferência”.
“O novo sistema de comunicação é resultado direto do avanço da tecnologia, das imagens digitais de alta definição, da disponibilidade de banda larga e do protocolo IP”.
“É impressionante a sensação de realidade que nos transmite esse tipo de comunicação. Depois de alguns minutos, não percebemos mais as telas do sistema nem as limitações de distância e do próprio ambiente. Parece que estamos numa reunião de verdade, entrevista coletiva ou mesa-redonda”.
A idéia de um sistema interativo com áudio e vídeo é antiga, mas sua realização tem enfrentado diversos problemas.
Ao longo das décadas de 1980 e 1990, foram desenvolvidas várias opções de sistemas analógicos de videoconferência, na Europa e nos Estados Unidos, para comunicação audiovisual entre duas ou mais cidades. Mas, por seu custo operacional elevado e a pouca flexibilidade, não fizeram grande sucesso. Mesmo assim, ainda existem centenas de sistemas convencionais de videoconferência em operação no mundo.
A evolução da tecnologia permite agora uma solução muito mais avançada, transformando-se no sistema de telepresença, que oferece imagens de TV de alta definição e que mostram as pessoas em tamanho natural e som digital direcional.

MIL APLICAÇÕES DA TELEPRESENÇA

Uma das aplicações mais freqüentes da telepresença é a substituição da maioria das viagens de trabalho de longa distância, nacionais ou internacionais, feitas hoje por executivos para participar de reuniões.
Em lugar da perda de dias inteiros em viagens de negócios, as reuniões poderão ser feitas com muito maior rapidez e freqüência, eliminando-se o desconforto dos aeroportos, os longos vôos internacionais e os custos elevados de hotéis.
Um caso concreto de aplicação do sistema de telepresença de âmbito internacional está sendo desenvolvido no Brasil e no mundo para interligação de 40 escritórios em 23 países, da Procter & Gamble, a corporação gigante de bens de consumo cujo faturamento anual é de US$ 76,5 bilhões.

· Educação - As possibilidades da telepresença na área educacional parecem ser ilimitadas. No Estado americano do Colorado, o sistema está sendo usado para o treinamento à distância de professores, com excelentes resultados.
· Telemedicina - Entre as aplicações mais freqüentes da telepresença na área de saúde estão hoje diversos casos de telemedicina e de cirurgia remota, com auxílio da telerrobótica. Ou mesmo em exames clínicos à distância.
· Publicidade e vendas - Para demonstrar o potencial de viagens turísticas ou de imóveis, nada melhor do que mostrar imagens reais de locais, instalações ou produtos distantes.
· Entretenimento - Com essa tecnologia, podem ser mostrados também parques naturais, recifes de coral ou cavernas naturais a serem exploradas, seja no caso de um simples entretenimento ou de uma forma de turismo virtual online.

UM EXEMPLO

Jill Smart, executiva da Accenture, tinha suas dúvidas quando entrou pela primeira vez na nova sala de videoconferência de sua empresa em Chicago para uma reunião com um grupo de colegas em Londres. Mas a videoconferência numa experiência tão real que Smart afirmou que "10 minutos depois você esquece que não está na mesma sala que eles".
A Accenture decidiu que seus colaboradores deveriam usar encontros virtuais para evitar, por exemplo, as 240 viagens internacionais e 120 vôos domésticos realizadas em apenas um mês, pondo um fim às incontáveis horas de cansativas viagens para seus funcionários e economizando milhões de dólares.

TELETRABALHO

Segundo a SOBRAT-Socidade Brasileira de Teletrabalho eTeleatividades teletrabalho é todo e qualquer trabalho realizado a distância, ou seja, fora do local tradicional de trabalho com a utilização da tecnologia de informação e de comunicação, ou mais especificamente, com computadores, telefonia fixa e celular e toda tecnologia que permita trabalhar em qualquer lugar e receber e transmitir informações, arquivos de texto, imagem ou som relacionados às atividades.
Teletrabalho é o mesmo que Home Office? Geralmente sim, mas não necessariamente. O trabalho a distância não determina um local específico para trabalhar, isso é definido de acordo com as características das atividades desenvolvidas pelo trabalhador e das necessidades da empresa. O teletrabalho pode ser desenvolvido:
· no domicílio do trabalhador,
· em escritórios descentralizados da própria empresa,
· em áreas gratuitas ou pagas de utilização de computadores e acesso à Internet (telecentros, cybercafés, bibliotecas, centros de convivência, etc).
· nas salas de espera ou mesmo do escritório de clientes – quando o atendimento aos clientes e fechamento de pedidos é feito online,
· em hotéis, saguões de aeroportos e rodoviárias,
· automóveis e outros veículos de transporte – quando o trabalhador encontra-se viajando a serviço, ou mesmo quando está viajando por razões pessoais.

O endereço eletrônico da SOBRATT é
www.sobratt.org.br

QUALIDADE DE VIDA

Home-Office segundo André Brik.
Seja bem-vindo ao melhor de todos os mundos: flexibilidade, conveniência e controle sobre a sua vida.
· Esqueça os ônibus lotados e a fumaça dos engarrafamentos.
· Em um Home-Office você tem mais tempo para lazer e para praticar esportes, além de trabalhar no ritmo que definir. Reduza consideravelmente seu nível de stress.
· Produza em um ambiente com móveis e iluminação adequados e um silêncio aconchegante.
· Participe da educação dos seus filhos estando mais disponível para eles: ao optar entre “carreira” ou “filhos”, decida por ambos!
· Sinta-se mais relaxado e bem-humorado.
· Alimente-se de forma mais saudável (nada como uma comidinha caseira).
· O banheiro do seu escritório em casa é o seu próprio, que você usa na hora que quiser.
· E trabalhando no Home Office você tem mais tempo livre e de qualidade para curtir amigos e família.
· Qualidade de vida, em minha opinião, é o maior ganho do escritório em casa.

10 SEGUNDOS PARA CHEGAR AO ESCRITÓRIO

Segundo matéria do caderno “Cidades/Metrópole” do jornal “O Estado de São Paulo” de 1 de junho de 2008 podemos avaliar algumas experiências.
Cerca de 30 quilômetros de distância, 50 semáforos e muita paciência separam a casa de Fausto Mantovani, em Mauá, do prédio da IBM, na zona sul de São Paulo. No fim da década de 1970, quando começou a trabalhar na empresa, era sossegado fazer o percurso, mas, com o tempo, precisou acordar mais cedo e chegar uma hora e meia antes à IBM para não se perder nos congestionamentos. Agora, Mantovani leva dois minutos da cama ao escritório.
"A melhoria na qualidade de vida foi fantástica", diz o gerente, que se rendeu ao Home-Office há dez meses. Além de levar uma vida mais saudável, com a prática de exercícios físicos e menos stress, diz que o teletrabalho fez bem para seu relacionamento social.
Estabelecer regras e ter disciplina é fundamental. Mantovani montou escritório num ambiente separado e, quando a porta está fechada, é sinal de que não pode ser incomodado.
Os "sem-chefe" são os que mais se aproveitam do Home-Office. O headhunter Plínio Serqueira, de 51 anos, já teve um escritório no centro, mas em 2003 decidiu atuar de casa, em Alphaville (Barueri). "Já levei duas horas para fazer esse trajeto até o escritório. Hoje são dez segundos."
O psicólogo e diretor de Recursos Humanos Fernando Carvalho Lima, de 56 anos, trabalha em casa desde 1997, quando era funcionário da empresa canadense Nortel. Quando montou a própria empresa em 2006, optou pelo Home-Office. Com mais tempo em casa, Lima investiu em ser pai de novo: adotou três crianças. "Conciliei o trabalho à possibilidade de vê-las crescer."

QUEM PODE TRABALHAR EM CASA?

Estamos ainda tateando no escuro, mas quem já está colhendo os frutos, com as vantagens e desvantagens, passa a ser um entusiasta.
O teletrabalho é utilizado basicamente nas áreas de vendas e gerência, sendo exercido por gerentes técnicos, de mercado e vendedores especializados. Nos Estados Unidos, consultores, executivos, analistas e especialistas em informática são as principais atividades exercidas via teletrabalho.
A Kodak foi uma das primeiras empresas a implantar o teletrabalho no Brasil, em 1988, com toda sua equipe de vendedores.
A empresa instalou uma linha de telefone e um computador na casa de cada funcionário. Hoje, são quase 100 vendedores espalhados pelo Brasil trabalhando basicamente via Internet. Todos os funcionários que trabalham sob esse método têm vínculo empregatício, salário fixo e carro designado pela empresa.
A Siemens já conta com cerca de 400 vendedores trabalhando a distância, mas está estudando a implantação desse sistema nos cargos administrativos. Cada funcionário deverá estabelecer com sua chefia a melhor forma de exercer sua atividade, quantos dias da semana, por exemplo, poderá permanecer em casa, e como implementará suas tarefas.

QUEM NÃO PODE TRABALHAR EM CASA

Profissionais que têm que interagir constantemente com outros profissionais dificilmente poderão exercer suas tarefas plenamente de suas casas. Para conseguirem êxito no modelo de trabalho em casa é importante que sejam profissionais experientes, com alto grau de autonomia. Profissionais que precisam de acompanhamento e orientação não conseguem um bom desempenho. Isso sem contar as pessoas que têm dificuldade de concentração ou são desorganizadas.
Existem profissionais que nunca conseguirão trabalhar em casa. O perfil desejado para o teletrabalhador é de uma pessoa comprometida, que cumpre seus prazos e tem espírito empreendedor, ou seja, busque alternativas. A empresa também é responsável pela avaliação do perfil do profissional que pode trabalhar distante dela. Empresas que implantam o teletrabalho só pensando em redução de custos certamente não alcançarão bons resultados.

PREPARE-SE PARA ENCARAR DESAFIOS

Os maiores desafios no mundo do teletrabalho não estão na tecnologia, mas em quem usa a tecnologia para trabalhar a distância, ou seja, o profissional ou a empresa. Trabalhar em casa é a melhor coisa do mundo, mas não esqueça que sua família, e até seu cachorro devem concordar com essa decisão.
Isso quer dizer que não basta ir pra casa carregando o computador e mais uma linha telefônica, e pronto, problema resolvido. Em primeiro lugar, algumas questões precisam ser levantadas:
· quais as vantagens e desvantagens para os trabalhadores;
· de que maneira a família do profissional poderá ser afetada com essa decisão;
· de que forma a própria família afeta o rendimento do trabalhador;
· até que ponto é positivo fazer da residência – lugar desde sempre determinado como local de descanso – lugar de trabalhar;
· e a falta de contato com outras pessoas, não pode prejudica o indivíduo?

É inegável que há aumento de produtividade, uma vez que perde-se menos tempo no trânsito, para falarmos apenas de um aspecto positivo. Mas não é uma tendência tão absoluta como se tem falado. Um outro problema, que em um primeiro momento não é percebido, é que o trabalho em casa favorece a extensão da jornada de trabalho, pois se o profissional não delimitar seu tempo, corre o risco de ficar até altas horas na frente de seu computador.

AS ARMADILHAS DO TRABALHO A DISTÂNCIA

Disciplina é a palavra-chave. O funcionário tem que se impor limites, seja para trabalhar ou para parar de trabalhar. Outro fator é a informação. Em um primeiro momento, todos os funcionários se animam muito com a possibilidade de não precisar ir à empresa diariamente. Mas ele precisa ter claro no que implicará essa facilidade.
A distância dos colegas é um outro entrave para o trabalho em casa, porque as pessoas têm uma necessidade de interação que não costuma ser saciada com o teletrabalho. A Shell resolveu esse problema de uma maneira relativamente simples: criando o “Hora Extra”. Toda quinta-feira, das 17 às 20 horas, a equipe de vendas se reúne para um happy hour.
Além do happy hour, a empresa realiza, uma vez por mês, reuniões de confraternização, que podem ser cafés da manhã, almoço ou churrasco.
A Siemens, por exemplo, depois de perceber que seus funcionários sentiam certa carência afetiva por ficarem longe de seus colegas, orientou-os a comparecer à empresa pelo menos uma vez por semana, em esquema de rodízio.

Vantagens:

A principal é a redução de custo. Você elimina o transporte e alimentação da equipe. Corta também a necessidade do aluguel ou compra de uma sala, com mesas, cadeiras, computadores, armários, limpeza, IPTU, luz, condomínio, telefone.
Os profissionais gastam menos roupas, não vivem o stress das grandes cidades, sejam os engarrafamentos ou os assaltos. E ficam mais tempo com a família. Pode-se também contratar com uma mão-de-obra mais vasta, que extrapola os limites da cidade, estado ou país.
Para quem trabalha em casa:
· Mais tempo disponível para fazer coisas que antes você achava impossível.
· Você ficará livre do trânsito e dos engarrafamentos, além, é claro, de reduzir os custos com transporte.
· Colocará à prova sua autonomia, com menos pessoas controlando seus passos.
· Nos dias de chuva e de grandes engarrafamentos, é uma dádiva.
· Viverá mais feliz, menos estressado (só essa vantagem já basta, não é mesmo?).

Desvantagens:

Há o problema da falta do convívio social, nem todos se adaptam. O trabalho precisa ser bem distribuído e acompanhado.
Exige um treinamento diferenciado dos gerentes, pois sempre há a paranóia que do outro lado não se está trabalhando.
Há também o custo necessário de um software para administrar todo o processo.
O trabalho, obviamente, estando todos na mesma sala, teoricamente, pode render mais em determinados momentos, principalmente em trabalhos mais interativos.
Ou seja, vai depender muito do perfil das atividades da empresa para avaliar quando e como operar a distância.
Creio que é uma política de vida, tem gente que adora sair de casa para trabalhar. Ou, pelo menos, acha que adora.
No Brasil, a legislação ainda não sofreu alterações. A falta de atenção do Poder Público sobre o assunto tem feito com que aumente o número de reclamações trabalhistas por estes empregados, reivindicando, por exemplo, o pagamento de horas extras.
Para quem trabalha em casa:
· E agora, com quem você vai falar sobre suas dúvidas e angústias profissionais?
· A carência afetiva pode lhe pegar de surpresa.
· Sabe o dinheiro extra que você embolsa com os vales transporte e refeição? Esqueça. Você não precisa mais disso.
· A distância da empresa pode afetar a integração com sua equipe de trabalho.

O TRABALHO À DISTÂNCIA E A CRIAÇÃO DE EMPREGOS

Você já ouviu algum político defender o incentivo ao teletrabalho como fator de criação de emprego, diminuição do estresse urbano e melhoria da qualidade de vida?
Um escritório empresarial repleto de computadores, com todo mundo de olho na tela: o que esse povo está fazendo aqui? Não poderiam produzir de casa, usando bermudas e chinelos?
Hoje, 20 milhões de americanos já trabalham longe do escritório. Ou ficam em casa, ou operam em telecentros, próximos de suas residências. Nos Estados Unidos, o teletrabalho é praticado há 20 anos.
O tema trouxe ao Brasil o especialista americano Gil Gordon, para uma série de palestras em São Paulo.
Para ele, o teletrabalho é uma opção seletiva e, por isso, a escolha dos empregados que irão usufruir desse benefício deve ser baseada em critérios muito bem definidos pelos dirigentes empresariais.
Destacam–se, entre eles, a habilidade para cumprir prazos, a automotivação e a independência para agir.
Segundo o consultor, as maiores barreiras que o Brasil enfrenta nesse segmento é, principalmente, a legislação trabalhista, considerada muito complexa e o preconceito ainda existente por parte dos trabalhadores e de algumas lideranças empresariais.

PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS

O teletrabalho pode contribuir para o emprego de portadores de necessidades especiais.

A OPORTUNIDADE DOS TELECENTROS

Os telecentros são unidades prestadoras de serviços que oferecem espaço para locação ou mesmo para compra. Além do espaço tornam possíveis diversos serviços de apoio para uso exclusivo ou compartilhado. Servem para empresas e para profissionais autônomos.
A locação de espaço em telecentros é uma oportunidade de negócios a ser considerado para novos empreendimentos de prestação de serviços.
Os governos deveriam incentivar a criação de telecentros como forma de ampliação de empregos e para diminuir o deslocamento de pessoas e melhorar as condições do trânsito dos centros urbanos.

JÁ SÃO 10 MILHÕES DE TELETRABALHADORES

A partir de dados gerais sobre o acesso dos brasileiros a computadores e a Internet levantados por diferentes pesquisas de diferentes instituições a SOBRATT-Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades tem realizado alguns cruzamentos que permitem fazer uma estimativa também genérica de que o Brasil, conta, em 2008, com aproximadamente 10 milhões e seiscentos mil teletrabalhadores.
No mês de junho de 2008, o instituto Market Analysis divulgou dados da pesquisa realizada sobre teletrabalhadores no Brasil que apontam que pelo menos 23% da população adulta em atividade no país adota ao longo do mês alguma forma de teletrabalho, sendo que, entre todos, o trabalho em casa é a modalidade mais comum (52%).

EMPRESAS QUE ADOTAM O TELETRABALHO

Informação da SOBRATT. São várias as empresas que trabalham no sistema de teletrabalho. Embora nem todas divulguem a adoção dessa forma de trabalho flexível, temos conhecimento das que seguem: · AT&T- · BT Global Service - · Cisco - · DELL - · Du Pont - Ernest & Young - · HP - · IBM - · Marry Linch - · Merck - · Natura - · Nortel - · Polycom - · Semco - Serpro - · Shell - · Sonicwall - · Symantec - · Telejob.

IMPACTO NOS SINDICATOS

Para os sindicalistas, o trabalho à distância é um dificultador adicional de suas atividades que, devido aos novos processos em curso na sociedade contemporânea, têm se enfraquecido, conforme atestam a queda do número e da proporção de trabalhadores sindicalizados, bem como o declínio das greves.
São inúmeros os fatores responsáveis por essa situação, as mudanças na estrutura do emprego provocadas pelo avanço tecnológico e a automação é um deles. Com a redução do número de trabalhadores manuais, que sempre apresentaram maior propensão à sindicalização, os sindicatos estão enfrentando um quadro de extrema adversidade, com muitas dificuldades em criar alternativas para essa conjuntura.
Se já é difícil realizar a organização dos trabalhadores a partir dos locais de trabalho, com o teletrabalho o desafio é ainda maior, porque o isolamento dos trabalhadores dificulta sobremaneira as ações sindicais.
Quem sabe a mobilização será feita através de correio eletrônico e o teletrabalhador irá cruzar os braços em sua residência e a reunião se dará em lugar público.

Há legislação no Brasil regulamentando o teletrabalho?

Atualmente um projeto de lei está em tramitação, já passou pela Câmara dos Deputados e aguarda análise do Senado Federal. O projeto de lei tem como único fim equiparar o trabalho realizado a distância e aquele realizado no estabelecimento do empregador. Entretanto a CLT não impede o trabalho remoto em domicílio, uma vez que a redação atual do artigo 6º diz que “Não se distingue entre o trabalho realizado no estabelecimento do empregador e o executado no domicílio do empregado, desde que esteja caracterizada a relação de emprego”.
Portanto, se analisada a atual legislação, pode-se observar que há espaço para se incluir legalmente o teletrabalho nas rotinas da empresa, todavia, é importante celebrar um adendo ao contrato de trabalho especificando as novas condições em que os serviços serão prestados, de maneira a dar credibilidade às ações da empresa e estimular o comprometimento do trabalhador.

PORQUE O MODELO NÃO DECOLA MAIS RAPIDAMENTE?

A intelectualização do trabalho que deixa as tarefas repetitivas para as máquinas cria condições ainda mais propícias para esta nova maneira de trabalhar. Os benefícios são óbvios: menor tempo em locomoção e no trânsito, possibilidade de trabalhar em um local agradável e perto da família e horários flexíveis, além de menores custos imobiliários e operacionais para as empresas.
Com todos estes fatores conspirando a favor, por que este modelo não decola mais rapidamente? A história já demonstrou diversas vezes que, quem limita o ritmo da evolução não é a disponibilidade tecnológica, que geralmente está algum tempo adiante das práticas correntes; mas o comportamento humano e sua capacidade de absorver mudanças. E aí está o grande primeiro desafio do trabalho à distância: a dimensão cultural.
Fomos educados para valorizar o trabalho; e existe um paradigma construído em décadas: trabalho acontece na empresa e vida pessoal, fora dela. Quem está trabalhando em casa não se sente trabalhando. Por muitas vezes sente-se envergonhado por estar em casa.
É possível ouvir histórias de pessoas que não conseguem trabalhar de bermuda, ficar sem sapato e no limite precisam colocar sua gravata para reforçar a idéia de que não estão passeando.
Além disso, organizar a convivência pacífica e produtiva com a família não é tarefa fácil. Todos na casa precisam entender que por longas horas a pessoa está cumprindo seu papel profissional, caso contrário as interrupções se tornam constantes e até irritantes.
Mas tudo leva a crer que em algum momento estes hábitos começarão a mudar impelidos pelas novas gerações ávidas por quebrar paradigmas e mais inclinadas às novas tecnologias.
Em tempo. Sempre é bom lembrar de perguntar ao cachorro o que está achando disso tudo.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A CRISE MUNDIAL DE ALIMENTOS

SÉCULO 21 SERÁ DE “PENÚRIA ALIMENTAR”
Fonte: Marcelo Ninio
Caderno Dinheiro da “Folha de São Paulo” de 27 de abril de 2008


O economista Bruno Parmentier, diretor da Escola Superior de Agricultura de Angers, a mais importante do setor na França, diz que é preciso uma revolução para reverter crise mundial que eleva preço dos produtos.
Autor do livro “Nourrir l´humanité” que faz barulho na Europa por dizer que o século 21 será uma era de penúria alimentar, diz que vai ser necessária uma revolução para reverter a atual crise mundial: na agricultura, no comércio, nos hábitos. Parmentier critica as organizações internacionais que passaram anos desestimulando a produção agrícola e os biocombustíveis, mas isenta o álcool do Brasil.
Em entrevista à Folha, defendeu os subsídios aos produtores, disse que foi um "erro histórico" confiar a negociação agrícola à OMC (Organização Mundial do Comércio) e questionou a "contradição" do Brasil, que se torna um grande exportador de alimentos, mas não consegue erradicar a fome.

Motivos da penúria alimentar

Em meu livro, Bruno Parmentier, explica que o século 21 será de penúria alimentar. Por vários motivos.

O esgotamento dos recursos naturais faz com que a revolução agrícola dos anos 1960, que usa muita terra, água e energia, não possa ser levada adiante num período de escassez.

A química já deu à agricultura tudo o que podia no século 20, com os fertilizantes, os fungicidas, os inseticidas e os herbicidas. Hoje ela custa muito caro em termos de energia e acabou poluindo o solo e as águas. Em matéria agrícola, o século da química está chegando ao fim e é preciso deslanchar o da biologia.

Só em 2007 o aquecimento global e suas conseqüências para a agricultura passaram ao primeiro plano das preocupações globais. Será que a Austrália está vivendo uma sucessão de azares com suas estiagens repetidas, ou terá o fenômeno se tornado definitivo?

A elevação acelerada do nível de vida em países asiáticos industrializados provocou um enriquecimento dos hábitos alimentares, com a passagem para uma alimentação à base de produtos animais - carne na China e derivados do leite na Índia. A pressão que essas populações exercem sobre os recursos do planeta se acentua rapidamente.

O problema energético mundial já passou para o primeiro plano de maneira duradoura. Ele afeta a agricultura duplamente: por um lado porque a revolução tecnológica precedente era altamente consumidora de energia. Em segundo, porque se passou a exigir da agricultura que ela preencha os pratos e os tanques dos automóveis. É importante acabar imediatamente com esse erro histórico: não temos cereais e oleaginosas suficientes e queimá-los torna-se um crime.

Destruímos sistematicamente todos os programas de apoio à agricultura produtora de alimentos em todo o mundo. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional chegaram a impor esse desengajamento como condição para a concessão de sua ajuda aos países endividados, incentivando-os apenas a produzir culturas industriais que lhes permitiriam obter nos mercados internacionais divisas para saldarem suas dívidas.

Impacto dos biocombustíveis.

Sobre o impacto dos biocombustíveis nos preços dos alimentos Parmentier diz: até hoje o único impacto real e comprovado é o dos biocombustíveis norte-americanos à base de milho, que desde o início de 2007 provocaram um verdadeiro choque no México, quando o preço da tortilha teve um aumento de 50%. Mas, se continuarmos com essa política insensata de queimar cereais ou oleaginosos em nossos motores, esse erro inicial dos agrocombustíveis de primeira geração vai de fato converter-se em crime.
Em relação ao álcool produzido no Brasil existe uma diferença essencial: os brasileiros já estão de certo modo nos biocombustíveis de segunda geração, ou seja, feitos a partir da planta inteira, a biomassa - não a partir do grão. Parece que vocês estão indicando o caminho a seguir, e, é claro, sua produtividade é bem melhor que a nossa. Em contrapartida, observo que o Brasil, grande país agrícola, fortemente exportador, não consegue alimentar corretamente sua própria população.
O Brasil terá que resolver essa contradição: alimenta países muito distantes, enche muitos tanques de combustível, mas ainda há milhões de brasileiros que têm fome.

Assembléia de comerciantes

O fato de a responsabilidade pela agricultura e a alimentação mundial ter sido tirada da FAO (Organização da ONU para Alimentação e Agricultura) para ser confiada a uma assembléia de comerciantes, a OMC, é um erro histórico. Esta crise nos permite ver muito bem que os comerciantes são totalmente incapazes de resolver o problema da fome no mundo. Acreditar que comerciantes vão levar aos povoados no fim do mundo produtos agrícolas que pesam muito, que apodrecem facilmente, para dá-los a pessoas que não têm dinheiro, é uma fraude intelectual.
Não se pode alimentar a humanidade com os excedentes de produção de alguns países. Se o Brasil pode alimentar 50, 100 ou 150 milhões de pessoas além de sua própria população, tanto melhor - é um serviço verdadeiro que prestará à humanidade, e será bom para ele, que, de passagem, se enriquecerá. Mas estamos falando hoje em 850 milhões de pessoas que passam fome, e muito provavelmente de outros 50, 100 ou 150 milhões a mais até o final de 2008, sendo que a população mundial aumenta em 80 milhões de pessoas a cada ano.
Não compreendo como pessoas que raciocinam possam imaginar que esse comércio vá evitar as revoltas provocadas pela fome. Vejam o primeiro reflexo da ação dos grandes países exportadores de arroz que fecharam suas fronteiras e proibiram as exportações, para garantir a alimentação de suas próprias populações. No século 21, depender de outros países para se alimentar é fazer uma aposta num futuro extremamente perigoso.
É preciso reavaliar por completo a organização da agricultura mundial. Não há nada mais urgente que fechar as fronteiras, e organizar, nos países que têm fome, a mesma política que deu certo nos grandes países povoados que conseguiram se alimentar, como Estados Unidos, Europa e China: fechar as fronteiras para proteger sua agricultura e dar apoio maciço a seu desenvolvimento. Mas isso não deve preocupar o Brasil: ele ainda terá por muito tempo compradores para seus produtos, pois vamos viver um período prolongado de penúria.

A questão dos subsídios

Não creio que as subvenções agrícolas realmente causem a insegurança alimentar. O problema é que apenas os países ricos têm condições de pagar uma verdadeira segurança alimentar. Mas pensar que os países mais pobres conseguirão exportar sua produção agrícola à Europa e aos Estados Unidos se todas as fronteiras forem abertas me parece um engodo intelectual: eles não têm excedentes, e, quando produzem, sua produtividade é muito menor. A solução é exatamente o inverso: é preciso generalizar a proteção da agricultura produtora de alimentos e a subvenção a essa agricultura.

Mudança nos hábitos alimentares

É urgente acelerar o processo de transição alimentar. Dos 6,7 bilhões de habitantes do planeta, 887 milhões são subnutridos e 1,1 bilhão têm excesso de peso. Isso faz sentido? É preciso que os ricos comam menos carne e açúcar, mas também que centenas de milhões de pobres possam comer carne e açúcar de vez em quando.
Mas, além dessa mudança de hábitos alimentares, é preciso parar de desperdiçar. Como é possível que cause alegria em seu país, por exemplo, a abertura de restaurantes em que se paga um preço fixo ao entrar e a comida é ilimitada? Isso é provavelmente algo que tem suas raízes na cultura brasileira, mas que não corresponde de modo algum às exigências e aos desafios do século 21.

PRODUÇÃO ATUAL DE ALIMENTOS DÁ E SOBRA PARA A HUMANIDADE INTEIRA
Fonte: Reinaldo José Lopes – Do G1

Simples mudança na eficiência agropecuária poderia aumentar produtividade várias vezes. Área utilizada para plantio e criação não cresceu nas últimas décadas, revelam dados.
O que eu posso garantir é que, com a área agrícola disponível hoje no planeta, sem abrir nenhum hectare novo de lavoura ou pasto, dá e sobra para alimentar a população mundial. E digo que ainda sobra um bocado de área para produzir biocombustíveis", resume Luis Fernando Laranja da Fonseca, coordenador do Programa de Agricultura e Meio Ambiente da ONG WWF - Brasil.
"Conforme a população mundial foi crescendo, até chegar a cerca de 3 bilhões [nos anos 1960], a área agrícola do mundo aumentou na mesma proporção", conta o britânico Stuart Pimm, biólogo da Universidade Duke, nos Estados Unidos. "No entanto, quando a população dobrou e chegou a 6 bilhões, a área usada para agricultura e pecuária ficou mais ou menos inalterada, no nível que tinha alcançado quando havia 3 bilhões de pessoas no mundo, ou seja, cerca de 15 milhões de quilômetros quadrados."
Para ser mais exato, diz Fonseca, em 1965 a relação entre terra produzindo comida e seres humanos consumindo essa comida era de 1,3 hectare agrícola por pessoa, enquanto hoje essa relação caiu para 0,7 hectare. Além disso, o consumo de calorias por cabeça também cresceu - de menos de 2.400 kcal por dia para quase 3.000 kcal diárias no mesmo período. O aumento da eficiência agropecuária, portanto, é indiscutível.

BRASIL PODE DUPLICAR ÁREA DE PLANTIO
Fonte: Márcia De Chiara
Caderno de economia do “O Estado de São Paulo”, de 27 de abril de 2008

Roberto Rodrigues ex-ministro da Agricultura afirma que o Brasil é hoje o único país que tem potencial para resolver no curto prazo a crise mundial de alimentos. O País pode incorporar aos 47 milhões de hectares usados para produzir comida 50 milhões de hectares de pastagens subaproveitadas e com aptidão para agricultura de grãos.
Com isso, é possível dobrar a área com grãos e ampliar em duas vezes e meia o volume da safra de alimentos, atingindo 350 milhões de toneladas de grãos, sem derrubar uma única árvore. Nessa conta, ele considera o crescimento da safra não apenas pela expansão da área, mas também pelo aumento da produtividade, que, na média das lavouras brasileiras, é baixa.
Além dos grãos, o ex-ministro, observa que o País pode multiplicar por sete a área plantada com cana-de-açúcar para produção de etanol sem afetar a produção de comida. Nas suas contas, há 22 milhões de hectares ocupados com pastagens degradadas que são boas para cana-de-açúcar e podem ser aproveitadas.
O superintendente técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, Ricardo Cotta, faz um alerta semelhante ao do ex-ministro. “O único país que tem condições de encarar a crise de alimentos como uma grande oportunidade é o Brasil”.
Há, entretanto, gargalos segundo diz Ricardo Cotta. O primeiro é a falta de infra-estrutura. Hoje é impossível aumentar em 10 milhões de toneladas a produção sem enfrentar problemas nos portos, rodovias e ferrovias, quanto mais em triplicar a safra. O governo deve atrair o capital privado para obras de infra-estrutura com regras claras.
O segundo ponto que segura o avanço da safra de grãos é a falta de financiamento ao produtor.
Outra barreira significativa e o custo de fertilizantes e de defensivos. Três empresas dominam o mercado de adubos. Coma alta do preço do petróleo e da concentração do setor, os fertilizantes subiram em um ano entre 80% e 90%.

CRISE AGRÍCOLA GERA OPORTUNIDADE AO PAÍS
Fonte: Mauro Zafalon
Caderno Dinheiro da “Folha de São Paulo”, de 27 de abril de 2008

Demanda por alimentos de um lado e biocombustíveis de outro levaram, aos poucos, os estoques mundiais para níveis perigosos neste momento.
Os EUA, por exemplo, líderes mundiais em produção de milho, mas que adotaram o produto como energia alternativa, chegam ao final do ano-safra 2008/9 com estoques suficientes para apenas mais 14 dias. O de soja será de apenas 34 dias.
Oferta aquecida, demanda apertada e estoques baixos foram o estopim para uma aceleração nos preços, incrementada ainda mais pelos fundos de investimentos, que também escolheram as commodities agrícolas para investir.
Com esse cenário, a menos que haja uma redução muito forte no ritmo da economia mundial, a demanda por alimentos vai continuar forte e, nos patamares atuais de produção, a reposição dos estoques demora alguns anos.
Países como Japão e China, grandes importadores de alimentos e com muito dinheiro em caixa, provavelmente vão pensar em abastecimento de produtos básicos com uma visão de mais longo prazo.

Alto custo

Aí entram as oportunidades do Brasil. O país elevou em muito a produtividade nos últimos anos, mas ainda patina no processo de produção devido a elevados custos e baixo poder financeiro dos produtores.
Governo, cooperativas e câmaras de comércio deveriam buscar acordos internacionais de longo prazo com esses países carentes em alimentos e torná-los responsáveis pela comida que consomem, do plantio à produção final.
O Japão, por exemplo, um dos grandes importadores mundiais de alimentos, empresta dinheiro a um juro próximo de 0,5% ao ano no mercado financeiro mundial. Com uma taxa semelhante, os agricultores brasileiros diminuiriam em muito os custos, elevariam a rentabilidade e estariam dispostos a investir ainda mais na agropecuária.
Os contratos de produção com esses países poderiam contemplar, ainda, uma garantia de seguros de produção, um dos gargalos dos brasileiros no momento. Os contratos poderiam ser de longo prazo, de cinco a dez anos, o que garantiria abastecimento aos importadores e investimentos por aqui na produção. Quanto aos preços finais dos produtos, seriam ajustados conforme valores vigentes no mercado internacional de cada período.
Outra grande oportunidade para o Brasil neste momento é a agregação de valores. O Brasil deveria pensar em uma estratégia de longo prazo para elevar a industrialização, diminuindo as vendas externas de matérias-primas, com menor valor. Isso significa romper algumas barreiras impostas por muitos países importadores. E este é o melhor momento porque eles precisam de alimentos.

Mudanças tarifárias

Mas, para isso, o país precisa de mudanças tarifárias internas. A passagem de matérias-primas de um Estado para outro pode tornar a industrialização inviável devido à diferença de impostos interestaduais.
No caminho inverso, o adubo importado pode chegar a Mato Grosso sem pagar impostos, mas, se sair de misturadoras brasileiras, é tributado, elevando o custo.

BRASIL AGRÍCOLA INCOMODA O MUNDO
Fonte: Alberto Tamer
Caderno de economia do “O Estado de São Paulo”, de 27 de abril de 2008

Estão com medo do Brasil. Com a magnífica expansão da nossa agricultura, das fontes de energia, como o petróleo e o etanol, estamos incomodando o mundo, nos transformando em fortes competidores dos mais ricos e poderosos, e eles não estão gostando..pois que não gostem!
Graças a uma série de fatores favoráveis e alguma dose de bom senso em Brasília, estamos roubando espaço de outros países: Europa e Estados Unidos. Estamos passando a liderar na área de commodities agrícolas, minerais e energia.

Foi a agricultura, sim. E tudo isso se iniciou com o magnífico milagre da agricultura e da agroindústria brasileira, que hoje sustentam a economia. Exagero?

Pedro Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína, prova à coluna de Alberto Tamer.

O Brasil é o primeiro exportador de café, açúcar, etanol, suco de laranja, tabaco, complexo de soja, carne bovina e carne de frango. O suco de laranja representa 82% do mercado mundial e o açúcar 41%. A fonte é o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Insuspeita.

O Brasil é o maior produtor mundial de açúcar, café suco de laranja e o segundo de álcool, tabaco, complexo de soja, carnes bovinas e de frango e o terceiro de milho e carne suína.

Safra dobrou. “Nos últimos dez anos, a safra agrícola simplesmente dobrou para 140,7 milhões de toneladas de grãos, principalmente graças ao aumento da produtividade de 2,18 para 3 kg por hectare. O agronegócio representa 27,85 % do Produto Interno Bruto nacional. O saldo comercial do setor no ano passado foi de quase US$ 50 bilhões”, acrescenta Camargo Neto.
Sem ele, estaríamos imersos num déficit, delicadíssimo na atual crise financeira que exige grandes reservas cambiais e independência financeira do exterior.
Tem mais. Pedro Camargo Neto alinhava mais dados para mostrar nova imagem da agricultura brasileira no mundo: em 1997, o Brasil representava apenas 0,01% das exportações mundiais de milho, hoje somos 9,4%. Em carne suína a participação saltou de 2,82% para 14,17%.
O Brasil tem tudo, absolutamente tudo, para duplicar de novo, triplicar a produção agrícola, abastecer tranqüilamente o mercado interno – fato importantíssimo, no momento – e atender ao crescimento da demanda mundial. Na verdade, é um país único no mundo. A nossa evolução tecnológica está impressionando os outros, que buscam aqui lições da nossa experiência.

CRISE ESVAZIA DEBATE IDEOLÓGICO SOBRE MODELO IDEAL DO AGRONEGÓCIO
Fonte: João Domingos
Caderno de economia do “O Estado de São Paulo”, de 27 de abril de 2008



Pela segurança alimentar do País, num momento de crise mundial de aumento de preços e escassez na oferta de alimentos, e pela garantida de excedentes de grãos para a exportação, o governo decidiu abandonar o discursos ideológico sobre a pequena e grande propriedade, da agricultura familiar ou empresarial.
O ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, de esquerda, defensor da agricultura familiar diz: “O discurso ideológico perde completamente o sentido quando o interesse geral de todos é a segurança alimentar. Temos é produzir alimentos para o consumo interno e aumentar a produção destinada à exportação”.
O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, de centro, que cuida dos interesses da agricultura empresarial e tem como responsabilidade o controle sanitário e o combate à febre aftosa e a outras doenças, medidas necessárias para a política de exportação do País, diz: “Não faço distinção entre pequena, média e grande propriedade. O agronegócio é de todos. Na batalha pela segurança alimentar, técnicos nossos e do Desenvolvimento Agrário trabalham em conjunto para melhorar as condições de produção. Isso é o que interessa”.
O governo tem dois ministérios para cuidar da questão agrícola – o do Desenvolvimento Agrário para os 4.200.000 agricultores familiares, e o da Agricultura para todo o restante.


OFERTA E DEMANDA DAS PRICIPAIS LAVOURAS BRASILEIRAS
NA SAFRA 2007/2008



................................Produção / Importação
..................................(Em mil toneladas)

Arroz em casca....11.955............900
Feijão...................3.437..............70
Milho..................56.233.............600
Soja em grão.......59.988............100
Farelo de soja......24.717.............10
Trigo....................3.824..........6.525
Algodão pluma......1.558.............60
Fonte: Conab

O trigo é crítico do ponto de vista do abastecimento nos próximos meses, segundo o analista da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Paulo Morceli.
O País é dependente do trigo importado, cerca de 70% do consumo é comprado no exterior, especialmente da Argentina. Mas, a Argentina não está vendendo o grão para o Brasil porque decidiu reter as exportações de trigo para controlar a inflação. A alternativa é comprar o produto dos EUA, Canadá e Ucrânia. Alem da maior despesa com frete há 10% de tarifa por serem paises fora do bloco Mercosul. A quebra de safras contribui também para o aumento de preços.


LULA VAI DAR MAIS CRÉDITO À PRODUÇÃO DE ALIMENTOS
AVALIAÇÃO É DE QUE CONSUMO ESTÁ EM EXPANSÃO E AGRONEGÓCIO VAI CRESCER

Fonte: Tânia Monteiro
Caderno de economia do “O Estado de São Paulo”, de 27 de abril de 2008

O governo já tem uma estratégia de curto prazo para enfrentar a crise mundial dos alimentos: vai estabelecer incentivos, inclusive de crédito, para que os agricultores não escolham o que plantar só a reboque da “onda do preço bom”, e vai transformar Luiz Inácio Lula da Silva numa espécie de ideólogo do “Brasil, celeiro do mundo”. Lula discursará cada vez mais para convencer os grandes e pequenos agricultores de que vale a pena apostar na produção de alimentos para consumo interno e para exportar. Também vai reforçar a idéia de que seu governo não duvida que “agricultura e indústria têm de caminhar lado a lado”.

ALTA NO PREÇO DO ADUBO NINGUÉM VÊ, DIZ PRODUTOR
Fonte: José Maria Tomazela
Caderno de economia do “O Estado de São Paulo”, de 27 de abril de 2008

Com o rosto castigado pelo sol, o agricultor Nivaldo Bressiani não gosta de ser apontado como culpado pela alta nos preços dos alimentos. À frente de cerca de 30 trabalhadores rurais na colheita de milho, em Porto Feliz, região de Sorocaba, ele apontou outro vilão: o adubo.
Ele conta que, para semear o milho que está colhendo comprou adubo a R$ 1.620 a tonelada, tinha comprado a R$ 870, quase a metade do preço. Como o valor do insumo sempre esteve atrelado ao dólar, ele não entende porque tamanha alta se, no mesmo período, a moeda americana só desvalorizou. As sementes também subiram 30%, diz ele. Os preços dos fungicidas e outros defensivos ficaram praticamente estáveis, enquanto a mão-de-obra subiu entre 6 e 7%.
Bressiane está colhendo 1.800 toneladas. Pretende vender 70% e reservar o restante para alimentar o gado. O preço é de R$ 25 a saca de 60 quilos para o produtor, com lucro de quase 50%. Ele lembra que, na safra anterior vendeu a R$ 10,50 a saca e teve prejuízo. “Estou praticamente recuperando o que perdi”.

ARROZEIROS GAÚCHOS PEDEM ESTABILIDADE
Fonte: Elder Ogliari
Caderno de economia do “O Estado de São Paulo”, de 27 de abril de 2008


Responsáveis por cerca de 55% da produção nacional de arroz, os agricultores gaúchos se dividem entre os irritados, os preocupados e os conformados com a perspectiva de o governo federal suspender a exportação do grão para evitar a explosão do preço no mercado interno.
O presidente da Associação dos Arrozeiros de Bagé, Ricardo Zago, diz; “nos últimos três anos, por incapacidade, o governo deixou o produtor quebrar e agora vai errar de novo se trancar exportações em vez de estimular a produção”. O discurso de Zago pode ser explicado pelas agruras recentes. De 2004 a 2007, os arrozeiros gaúchos trabalharam no vermelho, gastando a média de R$ 26,50 para produzir sacas de 50 quilos, vendidas a R$ 21, em média.
Em Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, o produtor Elíbio Orlando Bessow admite que precisa de uma safra bem cotada, com valores acima de R$ 30 a saca para respirar aliviado. Ele ainda tem de pagar dívidas contraídas há quatro anos, que o levaram a uma crise de hipertensão quando os preços afundaram, em 2005.


AGRICULTURA FAMILIAR
Fonte: Evandro Fadel
Caderno de economia do “O Estado de São Paulo”, de 27 de abril de 2008

O agricultor Eduardo Rugiski, de 61 anos, nasceu ali e nunca deixou a chácara de 9 hectares no município do Campo Magro, na região metropolitana de Curitiba. Casado com Bronislava, de 60 anos, teve cinco filhos e hoje embala duas netas. Da terra própria tirou e continua tirando boa parte da sobrevivência da família. “Foi tudo feito no cabo da enxada”, exulta Eduardo. Os filhos têm outros empregos, mas nenhum abandonou a lavoura.
Segundo a mãe, a terra é o elo que mantêm todos eles unidos, morando no mesmo local. Além dos 9 hectares, os filhos alugam áreas vizinhas para ampliar a produção. Atualmente, a maior parte está coberta pelo milho, utilizado para alimentar os animais e complementar a renda. Eles também plantam feijão, para consumo próprio e venda. E desistiram do arroz pela falta de tempo para se dedicar à cultura. Perto de casa, uma horta garante verduras e legumes para consumo, e ainda sobra para vender a um mercado.
A responsabilidade pela horta é do filho Teodoro, de 39 anos, que, agora, com o pai e a mãe, está terminando um curso sobre a qualidade do meio rural. Ele salienta que “A propriedade precisa ser uma empresa organizada”. Segundo ele, auxílio governamental para produzir nunca faltou, “Principalmente para a agricultura familiar”. No entanto, eles têm optado por evitar financiamentos.
Também para consumo próprio, o pomar fica recheado com laranja, tangerina, uva e caqui. Até vassoura é plantada na propriedade. Para complementar a renda Bronislava, conhecida como vovó Bruna, montou uma casa de café colonial. Os produtos são feitos por ela.
Eles quase foram à falência na grande geada de 1975. Toda a batata plantada se perdeu. Para pagar o financiamento bancário, desfizeram de muita coisa, entre elas o Aero Willys, ainda hoje lembrado com saudade. “Foi uma época difícil e chegamos a pensar em vender tudo”, diz vovó Bruna.
Trabalhando desde os 6 anos em lavouras, ela não consegue se ver em outra atividade que a obrigue a morar na cidade.
“Na roça, a vida é muito tranqüila, apesar de muito difícil”.
No pasto, um cavalo curte a aposentadoria depois de ter puxado muito arado. Hoje, um trator ajuda nas atividades.
Ao lado três bois pastam, “não compramos carne”, acentua vovó Bruna.
Dezenas de galinhas ciscam no quintal, enquanto porcos engordam para fornecer a banha usada no dia-a-dia. “Aqui toda a alimentação é pura”, arremata.

terça-feira, 22 de abril de 2008

BIOCOMBUSTÍVEIS, ALIMENTOS E MEIO AMBIENTE


Nas últimas semanas a ONU (Organização das Nações Unidas), BIRD (Banco Mundial) e o FMI (Fundo Monetário Internacional) chamaram atenção para a gravidade do problema referente à alta dos preços dos alimentos, cerca de 57%.
Nos últimos 12 meses foram registrados os seguintes aumentos:

· Milho – 31%
· Arroz – 74%
· Soja – 87%
· Trigo – 130%

Volta a idéia de um mundo diante do fantasma da fome que amedronta a humanidade desde que o economista Thomas Malthus previu no século XVIII que no futuro não haveria comida em quantidade suficiente para todos. Dizia que o crescimento da população se daria em ritmo muito superior ao do aumento de produção de alimentos. Essa previsão não se concretizou graças à extraordinária contribuição da tecnologia que possibilitou aumentar a produtividade na obtenção de alimentos.
O Banco Mundial previu que 100 milhões de pessoas poderão ficar abaixo da linha que separa a pobreza da miséria absoluta.
Diversas razões são consideradas para explicar o grande aumento no preço dos alimentos nos últimos 12 meses.

Aumento do consumo – A economia mundial cresceu 20% nos últimos 4 anos, aumentando o consumo de alimentos em paises emergentes como China, Índia, e Brasil onde vivem mais de 20% da população mundial. O crescimento da renda dos trabalhadores nesses paises fez com que mudassem seus hábitos de consumo. Trocaram carboidratos por mais proteínas, carne, leite e queijos. Para produzir 1 quilocaloria de carne são necessários de 8 a 10 quilocalorias de vegetais que é quanto o gado precisa comer para engordar.
Petróleo – O preço do barril de petróleo aumentou 110% desde o início de 2007, o que elevou o preço dos transportes, dos fertilizantes e defensivos agrícolas.
Clima e doenças – Secas, enchentes, pragas e doenças nos rebanhos provocaram quebras de safra graves na China, na Europa e na Austrália, reduzindo a oferta de alimentos.
Biocombustíveis – O incentivo do governo americano aos produtores de etanol de milho fez aumentar a cotação do grão e estimulou agricultores de soja e trigo a migrar para a produção de milho.
Urbanização – A população está se tornando mais urbana e deixa de produzir seu próprio alimento para comprá-lo no supermercado.
Commodities – A cotação do dólar caiu 37 % nos últimos 6 anos, provocando fuga de investidores para os fundos de commodities de alimentos. Há grande especulação com as commodities como ocorre com o café.
a) O volume de transações de café no mercado de commodities é cerca de 20 vezes o total produzido. O mesmo deve ocorrer com soja e milho.
b) Os investidores se apegam às commodities agrícolas pela desvalorização dos ativos financeiros em decorrência da crise de crédito e pela queda do dólar.
c) Por outro lado os agricultores preferem reter suas safras à espera de melhores preços.
Dessas cinco causas podem ser consideradas definitivas: o aumento de consumo, o preço de petróleo e a urbanização.

"Crime contra a humanidade" será?

O assunto ganhou destaque no Brasil porque o representante da ONU para o direito à alimentação, Jean Ziegler, declarou que a culpa da fome mundial é dos biocombustíveis. Trata-se de um “crime contra a humanidade” disse Ziegler. Como o etanol é uma prioridade do governo brasileiro, o presidente Lula reagiu. Acusou Ziegler de não conhecer a realidade brasileira, o que é verdade.
Apesar de tantos fatores a empurrar para cima o preço dos alimentos, é preciso dizer que as notícias não são exatamente ruins quando se pensa no futuro da humanidade. “ Em alguns paises, produzem-se alimentos suficientes para toda a população nacional e para exportação. Então a questão não é o tamanho da população, mas a tecnologia que está sendo usada e o investimento que está sendo feito”, disse o diretor-geral da FAO, Jaques Diouf.
As previsões catastróficas desprezam o fato de que os avanços da tecnologia agrícola poderão prover grandes aumentos de produtividade nos próximos anos. E que as nações ricas poderão eliminar barreiras e subsídios que sufocam a produção nos países pobres.

Perdas inaceitáveis

Esses senhores da ONU, Banco Mundial e FMI e os governos em geral poderiam ajudar com a redução das perdas de alimentos que ocorre nos processos de armazenagem e transporte. De 40 a 60% da produção mundial de alimento é perdida pela falta de armazéns e de transportes adequados. Poderiam, também, expiar na lata de lixo das pessoas para constatar outra importante perda de alimentos.

As perdas brasileiras

De 30 a 40% de todos os alimentos produzidos no país vão parar no lixo. Em países desenvolvidos, esse índice não chega aos 10%. Aqui, são toneladas e mais toneladas de comida perdidas diariamente. Boa parte do desperdício ocorre logo na colheita e no transporte, mas os consumidores também têm sua parcela de responsabilidade. O brasileiro – pasme! – joga fora mais comida do que a que de fato leva à mesa. Um estudo da Embrapa mostra que só em hortaliças, por exemplo, o total de perda a cada ano é de 37 quilos por habitante, enquanto a ingestão desses vegetais não passa dos 35 quilos no mesmo período. Toda essa comida desperdiçada equivale a 12 bilhões de reais que o país despeja nas lixeiras a cada ano. Para se ter uma idéia, isso é quase metade do orçamento do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome ou 24 vezes o da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Estamos, literalmente, botando dinheiro e saúde no lixo.

O uso das terras brasileiras

A área total do Brasil é de 850 milhões de hectares ou 8,5 milhões de quilômetros quadrados, correspondentes a:

Amazônia, Pantanal e
Áreas de preservação = 503 milhões de hectares 59%

Terras aráveis = 347 milhões de hectares 41%

As terras aráveis correspondem a:

Terras livres = 65 milhões de hectares 19%

Terras usadas = 282 milhões de hectares 81%

As terras utilizadas correspondem a:

Pastos = 211 milhões de hectares 75 %

Lavoura = 63 milhões de hectares 22 %

Canaviais = 8 milhões de hectares 3 %

Uso da terra por tipo de cultura

% da lavoura
Soja 33%
Milho 24%
Cana 13%
Feijão 6%
Arroz 5%
Trigo 3%
Algodão 2%


Crescimento do cultivo de cana

O cultivo de cana aumentou em 653.700 hectares na comparação com a safra anterior. Esse aumento se deu da seguinte forma:

65% pela ocupação de áreas de pastagem

22% pela ocupação de áreas de grãos

Esses números constam de estudo realizado pela CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento. Vale destacar algumas conclusões do estudo.

a) Dos 653.700 hectares adicionados ao plantio da cana 140.000 eram ocupados no plantio de grãos, ou 0,4% da área ocupada. A safra 2006/2007 de grãos cresceu 6,8%. Para isso expandiu apenas em 1,1% na área plantada. O crescimento se dá em função do aumento da produtividade.

b) O avanço na área de pastagem não implicou na redução da produção de carne. Os produtores estão usando técnicas de confinamento, assim reduzem a área e produzem mais ou a mesma coisa. Com isso desaparece o argumento que a cana obriga a pecuária avançar sobre a floresta amazônica.

Os pastos ocupam 211 milhões de hectares de terras agricultáveis em todo o país. É mais do que o dobro da área dedicada ao cultivo de alimentos: 60 milhões de hectares. São eles o principal agente do desmatamento do cerrado e da Amazônia.
No zoneamento da cana que está em elaboração no governo, será dada prioridade ao plantio em áreas de pastos. Ainda assim, a instalação de usinas segue padrões de proteção ambiental.
Segundo o estudo, mais da metade da expansão do cultivo da cana da safra 2007/2008 ocorreu no Estado de São Paulo. O Estado responde por 54% das novas áreas plantadas. Mas as maiores taxas de crescimento foram encontradas em Minas Gerias, Goiás e Mato Grosso. Esses três Estados são as novas fronteiras da cana.

Rotação na cultura de cana

A produção de cana permite cinco cortes consecutivos – um a cada ano -. Para preservar a produtividade da terra convém utilizar a terra para outro tipo de cultura a cada cinco anos. Observado esse cuidado haverá sempre 1/5 das terras canavieiras com outro tipo de cultura.

Selo do Inmetro

O Inmetro – Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial deve acelerar a certificação do etanol brasileiro. Vai assegurar ao importador que o etanol foi produzido sem trabalho escravo e sem prejuízos ao meio ambiente. Assim são esvaziados dois dos principais problemas identificados pelos críticos dos biocombustíveis

Zoneamento da produção de cana

Em junho ou julho, deverá ficar pronto o zoneamento da produção de cana, segundo informa o ministro da agricultura. O trabalho visa dizer onde é possível plantá-la, onde o governo quer que seja cultivada e onde será barrada a entrada dos canaviais.
A Bacia Amazônica e o Pantanal serão preservados do avanço da cana, numa sinalização importante aos ambientalistas. A prioridade será em áreas de pastagens.

Críticas

O governo identificou, até agora, cinco grupos de críticas aos biocombustíveis:

a) que não reduzem a emissão de gases que provocam o efeito estufa;

b) que causam desmatamento;

c) que a produção envolve um consumo elevado de petróleo;

d) que é utilizado trabalho escravo;

e) que roubam a terra que produziria alimentos.

O governo não concorda com nenhuma dessas críticas, embora admita casos isolados de trabalho degradante, contra a lei. Na maior parte, as críticas se aplicam ao etanol de milho, produzido nos Estados Unidos. Mas admitem fontes do governo, o etanol brasileiro produzido a partir da cana “apanha junto”.

De salvador do planeta a vilão

De salvador do planeta a vilão do aquecimento global e da alta dos preços dos alimentos. A percepção sobre os biocombustíveis no exterior mudou radicalmente, o que põe na berlinda o etanol brasileiro, uma das áreas mais promissoras do País.
Na Europa, predomina agora a visão de que os biocombustíveis pioram a situação do meio ambiente. A devastação de florestas para o cultivo das matérias-primas e a elevada quantidade de energia envolvida no processo de produção são os argumentos ambientais mais utilizados. Os biocombustíveis aparecem como vilões na alta dos preços dos alimentos.
O tema dominou a última reunião do G-7 (sete paises mais ricos do mundo), deixando até mesmo em segundo plano a atual crise de crédito.

Revisão das metas da União Européia

Em 2007 a União Européia se comprometeu adicionar 10% de biocombustíveis na gasolina até 2020. Hoje o percentual é de 2%.
Um ano depois surgem sinais de mudança a partir dos discursos das autoridades locais. Paises como a Alemanha, França e Reino Unido já decidiram eliminar os subsídios dos biocombustíveis, como forma de desestimular a produção na região, usando as dúvidas sobre sua eficácia ambiental.
Sob pressão da indústria automobilística, a Alemanha desistiu de adotar combustível formado por 90% de gasolina e o restante de etanol, a partir do ano que vem.
O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, surge como uma das principais vozes contra a iniciativa ao defender que o assunto seja debatido na reunião do G-8, a ser realizada em julho, no Japão.
O Greenpeace também fez campanha para que o início da adição na Europa fosse adiado. Apresenta como argumento a destruição das florestas e o aumento do preço dos alimentos.

O erro é produzir etanol de milho, beterraba e colza

O etanol produzido com a cana-de-açúcar não diminui a oferta de alimentos. O mesmo não ocorre com a opção dos EUA que usa o milho para esse propósito. Há menor oferta para consumo humano e para a produção de ração. Estimulou agricultores de soja e trigo a migrar para a produção de milho.
Na Europa o etanol é produzido com uso da beterraba e da colza que pode produzir impacto na produção de açúcar e de óleo comestível.

Defesa – O etanol passou a incomodar

Miguel Jorge – ministro do desenvolvimento, indústria e comércio exterior – diz que o produto brasileiro é vítima de campanha lançada por agricultores europeus e por ONGs financiadas por petroleiras.
O crescimento do etanol no mercado internacional lançou Brasil e União Européia em uma batalha comercial. Pressionados pela perspectiva de abrir seu mercado com a conclusão da Rodada Doha e pela decisão do bloco de adicionar 10% de biocombustíveis até 2020, os agricultores europeus lançaram uma campanha contra o produto brasileiro. Querem mais proteção e subsídios. Os ataques são engrossados por ONGs financiadas por petroleiras
O Brasil sofre derrotas na comunicação. Por outro lado, no mundo dos negócios surgem investimentos de bilhões de dólares e a lista de países que começam a utilizar biocombustíveis está aumentando. Os EUA têm programa, o Japão vai misturar etanol, a Noruega tirou as tarifas sobre o etanol, na Suécia os ônibus de Estocolmo rodam com biocombustíveis. Percebe-se que o produto está se tornando internacional. É um primeiro passo para se tornar uma commoditie.
O governo brasileiro poderá defender o etanol brasileiro em uma conferência internacional, sobre o tema, a ser realizada em novembro em São Paulo. E em maio, Lula irá defender os biocombustíveis, na Europa em Roma, na reunião da FAO – Organização para a Agricultura e Alimentação.

Ban Ki-Moon diz que Brasil é um bom exemplo

Em meio a um tiroteio de opiniões sobre o impacto do etanol nos preços dos alimentos, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, saiu em defesa dos biocombustíveis e disse apoiar sua expansão. Afirmou que seria injusto culpar o etanol pelas altas dos preços das commodities. A todos os que criticam o etanol, ele sempre cita o exemplo de sucesso do Brasil.
Entende, também, que o etanol é uma energia limpa.
Ele reconhece que o relator da ONU para Direito à Alimentação, Jean Ziegler, condena a expansão do etanol. Mas observa que a visão não é unânime dentro da entidade.
Para Ban Ki-Moon, há outros fatores que afetam as cotações das commodities. Um deles é o preço do petróleo, que estaria elevando o custo dos fertilizantes. Outro problema seria a margem cada vez maior de lucro dos intermediários.
Ban Ki-Moon alertou para a crise dos preços dos alimentos e disse que o tema é prioritário em sua agenda: “Corremos o sério risco de ver perdidos os últimos sete anos de desenvolvimento e de redução da pobreza no mundo”. Além disso, tudo indica que as tensões políticas podem ser perigosas.

Embrapa na África

A Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária inaugurou escritório em Gana com o propósito de transferir tecnologia para produção de etanol a partir da cana-de-açúcar.

Etanol avança

A tentativa de desqualificar o etanol brasileiro não abalou os ânimos dos megainvestidores que desembarcaram no Brasil nos últimos anos para explorar o promissor setor de açúcar e álcool, nem dos tradicionais usineiros.
A previsão é que, na safra atual, 32 novas usinas entrem em operação na Região Centro-Sul do País, elevando para 84 o número de unidades inauguradas desde 2005. Para os próximos anos, outras dezenas de usinas entrarão em operação.

Uma Itaipu

O potencial de geração de energia elétrica pelas usinas canavieiras pela queima do bagaço e da palha da cana equivale à potência de Itaipu.
Outra possibilidade é o aproveitamento do bagaço e da palha para produzir mais etanol. Isso será possível na medida em que for desenvolvida tecnologia capaz de produzir etanol a partir de celulose. Os Estados Unidos e o Brasil empenham-se em viabilizar essa tecnologia.
O uso do bagaço e da palha para qualquer das alternativas mostra o extraordinário potencial que ainda resta para ser apropriado.

Observações finais

A maior defesa para o etanol é fazer com que contribua efetivamente para a melhoria ambiental e que possa ser neutro ou mesmo favorecer a produção de alimentos. Para isso podemos destacar o seguinte:

1) adoção de zoneamento agrícola que direcione a produção de cana em áreas já utilizadas para a lavoura;

2) esforços para aumentar a produtividade pela incorporação de novas tecnologias de maneira a tornar o etanol e o açúcar mais competitivos e preservar a utilização da terra para outras culturas;

3) certificação pelo Inmetro assegurando ausência de trabalho escravo e a preservação ambiental;

4) eliminação do processo de queima da palha da cana no processo de colheita, para melhoria ambiental, e reciclagem dos trabalhadores que serão desnecessários com a colheita mecânica;

5) destinar as áreas menos favoráveis à colheita mecânica para projetos de reflorestamento ou para diversificação de culturas;

6) medidas para diminuir ou eliminar os efeitos da monocultura da cana;

7) plena utilização do bagaço e da palha para produção de energia elétrica ou de etanol a partir da celulose desse resíduo;

8) transferir tecnologia da produção de etanol para outros países, especialmente em favor daqueles de populações carentes;

9) programa de educação alimentar para incentivar o consumo de vegetais em substituição à proteínas animais.

Fontes: Caderno de Economia do “O ESTADO DE SÃO PAULO”, de 20 de abril de 2008. Revista Veja de 23 de abril de 2008

domingo, 24 de fevereiro de 2008

A ESPERANÇA DE UMA NOTA SÓ

Eis aqui este sambinha feito numa nota só
Outras notas vão entrar mas a base é uma só

Cristovam Ricardo Cavalcanti Buarque, ou como é mais conhecido Senador Cristovam Buarque foi candidato a Presidente do Brasil na última eleição. O seu programa de governo tinha um único propósito: Educação. Muitos ironizaram afirmando que o Senador era um candidato de “uma nota só”.
O “sambinha” de Tom Jobim esclarece logo no início que “outras notas vão entrar, mas a base é uma só”. A grande “Sinfonia Brasil” pode ter como fundamento uma nota só, a Educação, mas todas as demais notas – saúde, segurança, economia, desenvolvimento social e outras – vão entrar como sugere o samba.
O meu voto, no primeiro turno das eleições, foi para o Senador. Pensando melhor, o meu voto não foi para o Senador, pois ele não reunia nenhuma chance de vitória. O meu voto foi para a sua proposta, que há de ser vitoriosa. Sempre que houver oportunidade darei minha contribuição para a vitória do “Brasil de uma nota só”, o Brasil da Educação.
No último carnaval, a Escola de Samba Vai-Vai foi vencedora do desfile das escolas de São Paulo. Desfilou no sambódromo com enredo que teve como tema “Acorda Brasil: A Saída é Ter Esperança”. Foi baseado em uma peça de teatro de Antonio Ermírio de Morais, que aborda a Educação no Brasil.
Será que agora a Educação vai-vai. Será que quando a educação desfila pela passarela do samba é porque começa a ganhar condição de prioridade nacional?
Para que a Educação seja prioridade nacional é necessário o reconhecimento de sua importância pelos governos federal, estaduais e municipais. As empresas e demais organizações, que possam oferecer recursos e participação competente, devem ter a Educação como compromisso e responsabilidade. Os meios de comunicação precisam abordar a importância da Educação até que seja alcançada à condição de objetivo prioritário e de valor estratégico para o desenvolvimento do país. Mais importante, ainda, é a família reconhecer a importância, deve perceber a Educação como o maior investimento para o progresso de seus filhos.
Apresento meu testemunho para evidenciar o que acontece quando os pais consideram a Educação como prioridade. Até 10 anos de idade vivi na zona rural onde freqüentei a escola primária até o terceiro ano. Fui aluno de uma escola mista rural. Mista no caso quer dizer uma escola que reunia em uma única sala todos os alunos de três séries. Oferecia ensino até o terceiro ano, daí para frente somente haveria possibilidade de continuar os estudos em escolas urbanas.
O que fizeram meus pais? Promoveram a mudança da família para a capital para permitir a continuidade de meus estudos. Por essa atitude serei sempre grato, eles tiveram consciência da importância da Educação colocada como prioridade da família.

domingo, 6 de janeiro de 2008

KIVA - O ORKUT DA FILANTROPIA

A reunião de duas ou mais tecnologias, geralmente, produz resultados fantásticos. O Kiva é um exemplo dos benefícios que a reunião de tecnologias permite. O significado de Kiva é “ação conjunta”, no idioma suaíli, falado no Quênia, Tanzânia e outras nações africanas,O Kiva nasceu da conjugação das seguintes idéias: microcrédito, internet, site de relacionamentos e cartão de crédito.
Comecemos com a experiência vivida por Alexandra Castro, de Guaiaquil no Equador, relatada por Naiara Magalhães autora da matéria “Orkut da Filantropia”, publicada na revista Veja de 9 de janeiro de 2008.“Em 2006, a feirante deu um passo importante em seu negócio. Tomou empréstimo de 925 dólares e, com o dinheiro, passou a comprar mercadorias no atacado, a preços mais baixos. Com a operação, aumentou a margem de lucro. Depois do impulso inicial, foi possível dar outro passo. Hoje, além de vender frutas, Alexandra as distribui a outros comerciantes. O pequeno financiamento que melhorou seus negócios não veio de uma instituição bancária tradicional, onde os mecanismos para a concessão de crédito, são repletos de filtros. Alexandra cadastrou-se no Kiva, o primeiro site de relacionamentos a possibilitar que empreendedores de baixa renda encontrem pessoas ao redor do mundo que estejam dispostas a ajudá-los on-line, sem intermediários”.
A reunião das diversas tecnologias no site Kiva se deu em 2005 por iniciativa do casal Matt e Jessica Flannery, jovens da Califórnia.
MICROCRÉDITO
Essa modalidade de crédito tem objetivo oferecer empréstimos para pequenos empreendedores que não têm acesso a esse recurso através das instituições financeiras. Sem os filtros e toda a burocracia das instituições tradicionais é possível obter pequenos empréstimos.
Essa modalidade ganhou destaque com o trabalho do Professor Muhammad Yunus que criou na Índia o Grammeen Bank. O seu trabalho alcançou grande repercussão mundial e permitiu que recebesse o Prêmio Nobel da Paz em 2006.
Não se trata de benemerência a fundo perdido, pois os tomadores dos empréstimos pagam juros e amortizam em prazo de mais ou menos um ano. Porém, permite inegáveis benefícios sociais ao permitir aos pequenos empreendedores progredirem, além de abrir portas para o surgimento de outros. Pode ser entendido, também, como instrumento para diminuição de desempregados que não possuam renda de qualquer espécie.
O Professor Yunus criou um banco para realizar esse projeto. O site Kiva permite que qualquer pessoa possa ajudar um pequeno empreendedor em qualquer parte do mundo, sem que precise criar um banco.
SITE KIVA
www.kiva.org/
O site Kiva espelha os sites de relacionamentos existentes na internet, como é o caso do Orkut. Segundo Naiara Magalhães, da revista Veja: “como no Orkut, microempresários inscrevem seu perfil na página da internet, com fotos e dados pessoais. Mas, em vez de citar filmes e músicas preferidas, descrevem o tipo de negócio em que atuam, estimam a quantia de que necessitam para incrementá-lo, dizem como investirão o dinheiro tomado e em quanto tempo poderão pagá-lo”.
Os que tiverem interesse em participar dessa rede de solidariedade escolherão a quem oferecer recursos pelo exame dos perfis cadastrados. Através de seu cartão de crédito farão a transferência dos recursos para os fundos do Kiva em nome do empreendedor escolhido. Ao final do prazo estabelecido para a amortização do empréstimo os credores recebem as quantias emprestadas sem juros e correção.
Outra razão de sucesso do Kiva segundo informa Naiara Magalhães: “é o alto grau de confiabilidade e transparência das operações. Para garantir a segurança do empréstimo, o site mantém parceria com instituições locais de microcrédito que atuam em cada um dos 39 países atendidos atualmente – não há, por enquanto, entidades cadastradas no Brasil. Cabe a esses parceiros selecionar empresários idôneos e produzir relatórios periódicos sobre o andamento do negócio financiado, permitindo ao credor acompanhar pela internet todo o processo”.
A inadimplência dos empréstimos é de apenas 0,2%.
Para realizar o trabalho, as instituições parceiras cobram juros de 20% ao ano. A taxa é igual à cobrada por instituições de microcrédito, como o Grammeen Bank do Professor Yunus. Ela é alta, mas como esses pequenos empreendedores não têm acesso ao crédito bancário acabam na mão de agiotas que cobram muito mais do que 20%.
No site Kiva é possível ver depoimento de Bill Clinton. Segundo o ex-presidente dos Estados Unidos: “É como se você conhecesse aquelas pessoas, soubesse como elas vivem e como tocam seus negócios. E você ainda pode ajudá-las. Tudo isso pela internet. É fantástico”.
O QUE JÁ FOI FEITO
a) 39 países já receberam financiamento.
b) 211.000 pessoas receberam, em média, 90 dólares emprestados.
c) 28.700 projetos receberam financiamento de 600 dólares em média.
d) Cerca de 19 milhões de dólares – 34 milhões de reais – é o valor total dos
empréstimos.

sábado, 3 de novembro de 2007

VOCÊ SABE ONDE FICA O BRASIL?

Artigo preparado por Ronaldo França, na Seção Educação, da Revista Veja de 7 de novembro de 2007, aponta algo preocupante em relação ao ensino de geografia nas escolas brasileiras. Sabemos que a preocupação não é restrita ao ensino dessa matéria, envolve todas as demais.
Pesquisadores do Instituto Ipsos abriram um mapa-mundi na frente dos entrevistados, 1.000 pessoas, em setenta municípios das regiões metropolitanas, e pediram que indicassem onde ficava o Brasil.

50% dos brasileiros não sabem onde fica o Brasil.

Outras perguntas foram feitas:
a) Onde fica a Argentina? 84% não sabem.
b) Onde fica os Estados Unidos? 82% não sabem.
c) Onde fica a França? 97% não sabem.
d) Onde fica o Japão? 92% não sabem.

E a gente ainda goza os americanos quando indicam Buenos Aires como a capital do Brasil. Mas, estarão eles melhores do que nós? Recente pesquisa mostra que 86% dos americanos sabem onde fica os Estados Unidos. Melhores, mas nem tanto.
O articulista Ronaldo França conclui seu artigo dizendo: “A péssima qualidade dos professores está na base dessa vergonha, agravada pela falta de mapas nas escolas. Acrescente-se a falta de instrução familiar e pronto: está formado o ambiente propício para criar gerações de brasileiros que exibem uma ignorância que não está no mapa”.

A NOSSA TORRE DE “PISA” ESTÁ MAIS TORTA DO QUE A ITALIANA

Na página seguinte da mesma revista encontramos artigo de Gustavo Ioschpe com o título: Preocupe-se. O seu filho é mal educado.
O Pisa é atualmente o teste internacional de qualidade da educação mais reconhecido. É aplicado a cada três anos. Em sua última edição pintou um quadro aterrador para o Brasil.
Entre os 40 paises participantes da pesquisa (30 desenvolvidos e 10 em desenvolvimento) ficamos em:
a) último lugar em matemática;
b) penúltimo em ciência; e
c) 37º em leitura.

Muitos dão de ombro a esses resultados, segundo Gustavo, e atribuem o fracasso às escolas públicas e imaginam que ao colocar o filho em uma boa escola particular, o problema está resolvido. O Pisa demonstra que esse raciocínio é equivocado.
Diz Gustavo Ioschpe: “A idéia de que a escola particular brasileira é boa e protege seus alunos das deficiências da escola pública é falsa. Nossas escolas particulares são apenas menos ruins do que as públicas – mas, se comparadas às escolas de outros paises ou a um nível ideal de qualidade, certamente ficam muito distantes”.
 

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